Pixinguinha na Pauta
23 abr 2011 Deixe um comentário
Instituto Moreira Salles e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo editam arranjos de Pixingunha
Numa tarde chuvosa em meados dos anos 70, quando dirigia a Rádio Roquette Pinto do Rio de Janeiro, recebi um telefonema aflito de um conhecido. Mal conseguindo articular as palavras informava que os porões do Edifício A Noite, onde se situa a Rádio Nacional, estavam sendo invadidos pelas águas de início de ano. Segundo ele, centenas de caixotes que armazenavam velhos arranjos orquestrais, estavam sendo tragados pela enxurrada. Comuniquei-me com dezenas de pessoas e armei esquemas mirabolantes para retirar às pressas aquele acervo , salvando-o da destruição e levando-o para o local onde deveria estar há tempos, o Museu da Imagem e do Som.
Movido por uma curiosidade fora do comum, fui dias depois ao MIS ver o estado daquelas partituras escritas nos anos 30, 40, 50 e 60 passei dias e dias em contato com aqueles manuscritos – hoje, felizmente, bem preservados e restaurados. Era emocionante ver arranjos escritos à tinta, para grandes, médias e pequenas orquestras, feitos por figuras exponenciais de nossas salas de concerto, como Radamés Gnattali, Guerra Peixe, Claudio Santoro e tantos outros. Em épocas de ouro de nosso rádio, artistas desse nível escreviam arranjos para conjuntos sinfônicos formados pelos melhores instrumentistas da cidade. Nossa música popular era manipulada por gênios de nossa música erudita e, apesar da sofisticação, a Rádio Nacional atingia os maiores índices de audiência da história. Ou seja, o público brasileiro não é o imbecil insensível que os atuais diretores dos meios de massa imaginam.
Toda essa tradição de arranjos orquestrais de música popular teve início nos anos 20 e um pioneiro genial: Alfredo da Rocha Viana Filho, o popular Pixinguinha. Oriundo da prática do mais endiabrado choro instrumental que se fazia no Rio no início do século XX, fruto da tradição do final do século com Calado, Chiquinha, Anacleto, Nazareth e outros, formando conjuntos – sobretudo o 8 Batutas – ele foi destrinchando a rítmica, a melódica e a pronúncia de nossa música de câmara popular e, aos poucos, espraiando-a para conjuntos maiores. Com o nascimento das rádios, dotadas de orquestras e o desenvolvimento das gravações a partir dos anos 20 – também impulsionado pelos experimentos jazzísticos que aqui chegavam dos EEUU – Pixinguinha foi criando uma gramática instrumental para nosso vocabulário musical espontâneo.
Um exemplo de seu trabalho pode agora ser visto e adquirido em lojas especializadas. O Instituto Moreira Salles e a Imprensa Oficial do Estado de S. Paulo – que estão de parabéns por isso – lançam um CD com 36 arranjos de Pixinguinha para orquestra, escritos para o programa O pessoal da Velha Guarda produzido por Almirante para a Rádio Tupi do Rio nas décadas de 1940/50: Pixinguinha na Pauta. Neles é possível identificar um “sinfonismo popular” de grande qualidade, que foi a linguagem básica de nossa música entre os anos 20 e início dos 60, época em que a Bossa Nova promoveu uma revisão de nossa MPB, acrescentando novos componentes e filtrando outros em sua forma de expressão.
Esperamos agora que a excelente Orquestra Jazz-Sinfônica de S. Paulo, que preserva como ninguém esse desenvolvido som sinfônico popular, execute esses arranjos. Assim a proposta do IMS e da Imprensa Oficial estaria completa e o público iria saber que veículos eletrônicos já transmitiram no passado uma música de qualidade – com a qual nossa radiofonia alcançou os mais altos níveis de audiência da história.
Júlio Medaglia
Mar/11