A Traição causa sofrimento aos três

A traição, que sempre afligiu casais, causa sofrimento aos três

Algumas pessoas não conseguem manter-se fiéis na relação amorosa. Seguem necessidades inconscientes — se não o fizessem, estariam traindo a si próprias. A situação não fica em brancas nuvens, pois um intui a vida oculta do parceiro e o outro vive dividido. O caminho é abrir o coração com franqueza. Pois não se é infiel a si ou ao outro impunemente.

Um tema trazido com freqüência aos consultórios é o da traição. Às vezes por quem trai e outras, muito mais, por quem é traído. Visto de qualquer lado, é sempre um assunto delicado.A palavra trair vem de entregar e traidor é o que entrega. Significa, portanto, entregar-se, mostrar aspectos seus normalmente ocultos. Ou entregar o outro.
Do ponto de vista analítico, quem trai o faz para não trair a si: tenta ser fiel aos seus desejos inconscientes, não aprovados pela sociedade. Na revista Veja de 19 de maio (páginas amarelas), a comunicóloga americana Laura Kipnis (47) contesta alguns dos conceitos mais sagrados da sociedade, como casamento, amor, monogamia, fidelidade. De modo algo pessimista, observa que é uma utopia procurarmos a felicidade no amor. E, assim como o dramaturgo e escritor pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980), ela acha que “a fidelidade deveria ser opcional, não obrigatória”.
Como se vê, a questão é difícil e polêmica. Embora à primeira vista não pareça, envolve sofrimento de ambos, porém de conteúdos diferentes: devemos seguir sempre o nosso desejo, o prazer, ou o transformarmos para ser fiéis a nossos votos e responsabilidades? Ao assistir a novelas como Celebridade, observamos a banalização do sexo e da traição.Trocar de parceiro, trair, mentir, é a tônica da novela. O triangulo amoroso é vivido sem culpa. Como uma diversão.
O casal de classe média que assiste à TV vive vicariamente as infidelidades e traições, e imagina que isso seria normal entre celebridades. As personagens mais lindas e ousadas trocam de parceiro sem nenhum escrúpulo, e quanto mais traem e mentem, mais sucesso conseguem.
Tudo isso deve tornar cada vez mais difícil às pessoas comuns decidirem o que seria ético em questões de amor. Pois existem pessoas que não agüentam trair seus sentimentos, renunciando à veracidade de sua alma. Para estas, a fidelidade à verdade interior é o único meio de viver. Sua sensibilidade interna é mais forte do que as pressões dos padrões sociais que dela divergem. Como não conseguem enfrentar os códigos coletivos, acabam traindo. Encontram um equilíbrio precário vivendo entre os dois pólos. Mas o ditado adverte: “Três, o diabo fez”. Equilibrar-se nessa balança é difícil a todos os participantes do triângulo.
Uma relação ideal deveria durar enquanto dura o amor e o desejo — numerosos casais são felizes e monogâmicos, e nunca sentiram necessidade de trair. Quanto à crença de que o homem trai mais por destino biológico, isso vem mudando desde que as mulheres se tornaram independentes. Aliás, já houve época em que a traição era considerada feminina — talvez porque traga maiores conseqüências, já que parece ser vivida com mais paixão. Vários romances, entre eles Madame Bovary, de Gustave Flaubert (1821-1880) e O Amante de Lady Chaterley, de D.H. Lawrence (1885-1930), são histórias sobre grandes traições femininas.
O preço a pagar por essas transgressões, masculinas ou femininas, é pessoal e muito alto. Como já diz a canção “Quem trai se trai a si mesmo, no riso no abraço no beijo no olhar”. O traidor vive cindido, dividido. O traído, mesmo sem saber de nada, inconscientemente sente que é enganado. O terceiro lado do triângulo também sofre, se o envolvimento for profundo. Quanto ao casamento, fica sem trocas. O silencio substitui a conversa e as queixas contra o outro são constantes. Ambos assumem o papel de vítima e culpam o outro por sua infelicidade e insatisfação.
Muitas vezes uma conversa difícil pode recuperar o que já parecia acabado. Abrir o coração, contar as próprias fraquezas é uma prova de amor e de confiança que pode refazer a ligação, reaproximando o casal. Não há, entretanto, uma resposta para todos os casos ou solução que se generalize. Nossa vida não é uma novela e sempre há um preço a pagar quando não somos fiéis a nós mesmos.

 

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Lu
    jan 18, 2012 @ 18:37:21

    ..como de 1 de seus textos….toda escolha leva a uma perda………….mas é sempre a melhor saída p/nós mesmos…..se libertar, ter a consciencia não limpa, mas tranquila…….

    Resposta

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