O mistério das escolhas amorosas

Quando somos pequenos, os pais nos levam a criar figuras internas de homens e mulheres que motivarão, em boa parte, a atração que sentimos por alguém. As imagens nascem, de início, do tipo de relação que temos com a mãe. Isso talvez explique por que há homens que se casam com tiranas. Mas não basta para entender, pois em amor nada é garantido.
O belo poema Amor, de Carlos Drummond de Andrade (1902 1987)), toca na incógnita da atração que sentimos por uma determinada pessoa, enquanto outra, talvez muito interessante, nada nos desperta. O poeta escreve: “São dois em um: amor sublime selo/ que à vida imprime cor, graça e sentido./ O ser busca outro ser, e ao conhecê-lo,/ acha a razão de ser já dividido.”
Um poeta tem grande sensibilidade para falar de amor. A psicologia, embora de outra maneira, também é sensível ao assunto, e utiliza-se da análise para perceber o que motiva as escolhas amorosas. De início convém observar que apaixonar-se, ter um par, um companheiro é desejo quase unânime. Poucos querem ficar sós. Mesmo antes da adolescência, na puberdade, crianças já buscam namoradinhos; paqueram brincando. Não ser escolhido, ser rejeitado é o pavor de todos.
Mas não se limita a um belo corpo, roupas de grife, ser esportista ou intelectual, o que vai determinar se uma pessoa é mais ou menos atraente. Existem fatores internos, emoções, sentimentos e os famosos complexos, com maior poder sobre essas escolhas do que podemos sequer pensar.
Carl Gustav Jung ( 1875 -1961), renomado psiquiatra suíço, disse que somos todos psicologicamente andróginos. Muitas tradições e mitos trazem a idéia de que o homem original era masculino e feminino. Eva foi criada a partir de uma costela de Adão, que portanto já trazia o feminino dentro de si.
O filósofo grego Platão ( 427-347 A. C) nos conta um mito no qual se diz que os seres originais eram redondos, com quatro braços, quatro pernas e duas faces. Esses seres eram maravilhosos e completos. Os deuses, invejosos, os cortaram em duas metades, a masculina e a feminina. Desde então as metades ficam se procurando; quando se encontram têm um sentimento tão grande de união, de completude, que não querem separar-se nunca mais. E temoem que os deuses, novamente com inveja, os separem.
Para Jung , todo homem tem um lado feminino interno que ele chamou de anima (alma em latim); e toda mulher tem um lado interno masculino, animus (espírito). A anima e o animus. segundo o psiquiatra, é que se responsabilizam pela atração que sentimos por uma pessoa determinada. São figuras internas, fundamentais para realizarmos nossas escolhas amorosas. Elas se formam em nossa imaginação, primeiramente nas relações com a mãe; depois, com o pai, parentes, professoras, amigos. Nossa imagem interna será projetada no parceiro. Se encontramos alguém que se parece com nossa figura interna, temos a tendência de sentir atração por ela. Por isso é tão importante o relacionamento da criança com os pais.
Neste artigo comentarei apenas a relação mãe-filho.
* A mãe tem de ser bastante boa, acolhedora, amorosa, para que o filho se sinta amado, valorizado. O pequeno interpreta assim o comportamento materno: “Se minha mãe me ama, é porque sou bom, bonito”. A auto-estima se forma a partir desse contato. Se a mãe for negativa, destruidora ou agressiva, a criança vai achar de si mesma que não é suficientemente boa.
* Um menino que foi abandonado pela mãe formará uma imagem interna feminina negativa e terá a tendência de se apaixonar por pessoas que o rejeitam, traem ou agridem, repetindo o modelo inicial de sua vida.
* Se a mãe exagerar nos cuidados e mimá-lo em excesso, também poderá causar males. O filho ficará preso a ela, sem coragem de enfrentar o mundo; e, o que é pior, lhe faltará capacidade de amar. Nenhuma mulher poderá competir com a mãe perfeita. Provavelmente será machista, inseguro e imaturo.
Depois de tudo isso, é preciso destacar o seguinte: não há garantia nenhuma em questões amorosas, mesmo que a mãe tenha sido ótima. Mas o carinho e o bom senso nas relações com os filhos ajudarão a formar pessoas saudáveis que terão capacidade de se relacionar de maneira digna e amorosa com o parceiro. Para voltar a Drummond: “Amor, sublime selo, que à vida imprime cor, graça e sentido.”

 

 

 

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Karla Gomes
    ago 22, 2012 @ 22:37:14

    Mãe violenta e pai ausente nossa to assustada. Agora posso entender meu dedo podre. Essas imagens acabam distorcendo nossa idéia de amor. E algo que imaginamos ser verdadeiro. E o faz de conta na vida adulta. E o que nos anima a vida. E uma brincadeira deliciosa mas tem um tempo e aí é esperar uma nova oportunidade pra amar de novo. Para parece uma grande ilusão.

    Responder

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